sábado, 19 de fevereiro de 2011

Meus tristes assuntos

tal como pedes eu trato
dos nossos tristes assuntos
já rasguei o teu retrato
e outro em que estavamos juntos.

e o anel que tu me deste
fui deitá-lo fora ao mar,
o vento soprava agreste
e não havia luar.

há-de ficar-te a lembrança
da nossa vida passada,
eu, perdida a esperança,
fico sem nada, sem nada.

fica tu com as mentiras
que te dizem estou bem
e outras mais que tu prefiras,
que as não digo a ninguém.

fico eu com as verdades
tão duras, sem exagero,
e angústias e ansiedades,
e agonia e desespero.

fico eu com o vazia
da negra noite sem fim,
nem sei quem sou, tenho frio,
estou comigo e sem mim

não me conheço ao espelho:
serei eu? não serei eu?
já deixou de ser vermelho
um coração que bateu.

e assim eu me despeço,
sem salvação nem socorro:
se não sou eu, me desgraço,
se sou eu, sinto que morro.

( Vasco Graça Moura)

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Wish



I WISH.....
YOU! (ALWAYS)

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Tu

Isto é uma loucura. Tudo isto é uma loucura. Não sei. E se sei não quero saber. Eu gostava tanto de ti. Posso-me arriscar a dizer que era amor platónico. Porque eu não tinha ideia do quanto te amava, do quanto te queria, do quanto te desejava e do quanto sofria por ti. Oh! E o quanto eu sofria por ti. Quem souber do meu histórico até pensa que gosto de sofrer! É verdade. Fui burra, mas o amor e a loucura do amor deixam-nos assim. Tiram-nos as armas, os escudo, o orgulho e por vezes a dignidade. Tiram-nos tudo e obriga-nos a rendermo-nos aos seus comandos.


Sabes? Eu fiquei assim. E sinceramente ainda estou. Sem quaisquer armas ou escudos.
Queria-te esquecer sem me magoar. Queria parar de pensar em ti, em nós. Mas agora só me lembro de ti e de nós. Estúpido não? Visto que tenho um novo barco cheio de nova mercadoria a querer atracar. Não digo que o meu novo barco seja uma substituição tua! Nada disso! Pelo contrário. Nem sequer existe comparação possível..

Ele até pode dar tudo e mais alguma coisa do que tu deste. Ele até pode não dar nada e mesmo assim estar a dar mais do que alguma vez tu deste. Mas mesmo assim? Mesmo assim nunca vai ser igual. Nunca.. E custa tanto saber isso. Custa tanto saber que não vou ter um amor como o nosso, louco, eterno, maravilhoso, corrosivo, feroz, belo, sem limites e fins. Sem ínicios e demoras. Sem mais ninguém a não seres tu.. e eu.

O meu mundo eras tu, o meu coração era teu, o meu tempo era teu, as minhas palavras eram tuas, a minha alma era tua, o meu hoje o meu amanha e o meu ontem eram teus. E meu o amor? Sem dúvida o meu amor e(ra)s tu.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Uma historia

«Então vou-te contar uma história.


No Bairro Alto, uma noite, uma rapariga está tristíssima sentada no passeio, agarrada ao telemóvel e está a chorar. E há um rapaz que passa e vê a rapariga e pensa: Eu tenho que fazer sorrir esta rapariga. E aquilo torna-se o objectivo dele naquela noite... ele vai contra os candeeiros, ele dá cambalhotas, ele faz o pino, ele cita sketches dos Monty Python... E ela finalmente sorri (...)

Vão para casa os dois, num dia beijam-se, no outro despem-se... Ok, parecia que estava ali a começar uma coisa muito bonita entre eles, uma história de amor absolutamente arrebatadora.

Um dia ele acorda, olha para o lado e ela não está lá.

Há um bilhetinho na mesa de cabeceira, e nesse bilhetinho sabes o que estava escrito?

Estava escrito: "Desculpa. Tu fizeste-me sorrir... Mas ele faz-me chorar."»

Filme Bela e o Paparazzo

amor VERDADEIRO

«Quero fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão.
Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática.
Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá tudo bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.
O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não dá para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe.
Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.
Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir.
A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.»

por Miguel Esteves Cardoso in Expresso